A aldeia impõe-se numa serra a perder de vista. No
deserto de gente, três gatos deambulam. Reina um silêncio onde o frio, e o
silvo do vento, desnudam o agreste dos dias, no pitoresco da aldeia abandonada.
Que
palavras, gastas ao sabor dos dias, ecoaram naquelas paredes? Que rostos, histórias
desaparecidas, brincadeiras de crianças, foram eternamente remetidos ao silêncio?
Esta
casa recorda-me a infância. Como se os pedacinhos de madeira com papel pintado,
dispostos em variadas construções, tivessem crescido comigo. Se fossem várias
casas, encontrar-me-ia nas cidades que há tanto tempo imaginei.
Esta
casa evoca-me um tempo que, sendo meu, já não me pertence.
É um pouco triste comer em silêncio, mas é menos triste
quando se sabe que não tem de ser assim. Percebo, que para apagar este
silêncio, onde cada ruído amplifica a ausência, alguns acendam a televisão.
Assim, já não se ouvem pensar. Assim, entra todo um mundo na casa vazia.
Dá-lhe
a mão. E o seu mundo pequenino é agora grande. E nele cabem os mistérios que
ainda não domina, os medos que ainda o perseguem, e a certeza de que, na sua
mão, descansa a essência da vida.