quinta-feira, 10 de maio de 2012

MUTILAÇÃO

A mutilação do nosso corpo é coisa que o cérebro tem dificuldade em aceitar.
Foi-lhe atribuído um corpo completo, pelo qual ciosamente zela. Não entende porque nos levantamos um dia, e uma perna já não está lá, retirada por uma eventual falência da qual não se sente culpado.
Então resolve o assunto de uma forma subtil, com dizem que faz a avestruz quando esconde a cabeça na terra. Ignora a situação.
E para dar mais credibilidade, inventa uma dor para esse membro que se foi, tão bem denominada pelos entendidos como dor fantasma.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Anúncio

Procura-se
Oferece-se – Emprego garantido para toda a vida, sem risco de despedimento. Remuneração – sorrisos, beijos, lágrimas, a alegria de contribuir para o crescimento de outro ser humano.
Pretende-se – Boa disposição, capacidade de executar várias tarefas em simultâneo, dons de adivinhação, boa memória, perícia em gestão de conflitos, paciência, amor incondicional.
Nota importante - Só responder quem estiver realmente interessada em ser mãe.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Poemas com rima – Cacimba

Olho pela janela, cacimba.
Não vejo nada à minha frente.
Bato com os dedos na tarimba.
É uma forma de ficar quente.

Dizem que estamos em Maio.
É convicção do calendário.
Mas tenho dúvidas quando saio,
se não mudei de fuso horário.

Estou com sono, indolente.
Até com uma certa astenia.
Se esta chuva é deprimente,
vou inventar a alegria.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Maio

Estamos a 7 de Maio. Um Maio tímido, frio, chuvoso. Como se devesse algo ao Inverno, alguma intromissão fora de tempo, tem agora vergonha de vestir as suas cores.
Vejo voar as inflorescências brancas, que parecem flocos de neve, e costumam cobrir os pavimentos, nos solarengos dias de Abril e Maio. Mas agora são escassas, em sintonia com esta Primavera em crise de identidade.
Caminho com a sensação de que me enganei no calendário.

sábado, 5 de maio de 2012

Estranho fenómeno


Tem vindo a passar-se um estranho fenómeno, que pela repetição, me começa a intrigar.

Entro no Metro. Procuro um lugar livre para me sentar. Mas quando lá chego, afinal está ocupado. Uma mochila, uma pasta, uma saca. O proprietário não a retira quando me aproximo. Não por uma qualquer distração, mas numa atitude deliberada. Tão deliberada, que sou obrigada a perguntar se o referido objecto lhe pertence, chegando mesmo a temer que a sua presença na cadeira resulte apenas do infeliz esquecimento de um anterior ocupante.

E é com um ar de imenso fastio, como se o meu desejo de me sentar representasse uma descabida afronta, que o seu dono (ou dona, pois isto já me ocorreu em ambos os géneros), se digna retirar o seu pertence e ceder-me o lugar.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Aprender a tocar


É ténue a linha que separa o tédio do exercício, do prazer da melodia conseguida.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Poemas - Brincadeira com a Rua da Cochicha



A cohicha e o cochicho
foram os dois passear
ele parecia um bicho
ela levava um colar.

Discutiam vivamente
a volta que haviam de dar
porque ele não parecia gente
e ela dava que falar.

Foi na rua da Cochicha
numa tarde em Colares
que terminaram a rixa
e ele foi para outros ares.