domingo, 8 de junho de 2014

INÉRCIA

É a inércia que me impede de avançar. Como qualquer outro corpo, resisto à alteração do meu estado, anestesiada na indolência de um não começo.

Mas uma vez vencida a inércia, dominado o meu atrito interior, o pensamento flui. Ideias, imagens, palavras, personagens, rolam no meu âmago e a história constrói-se.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Memória (ou a falta dela)

Hoje encontrei o relógio, perdido em casa há várias semanas. Uma saliência no bolso de umas calças que não usava há muito tempo.

Reconstitui. Sussurrava a voz das coisas perdidas. Mas reconstituir o quê, se o cérebro se entreteve noutras divagações, enquanto comandava gestos sem registo?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A cidade

Hoje olho a cidade com o encantamento de outros olhos. Deslumbra-me através desses olhos curiosos, vindos de outras paragens, que a olham pela primeira vez.


Fotografias de Mário Gomes

domingo, 1 de junho de 2014

Exposição na Unicepe – Homenagem a Dario Boaventura

Todos gostamos de deixar marcas da nossa passagem. Parte de nós assim permanece nos descendentes. Expressões, palavras e gestos, aptidões.
Mas no artista, há a obra que permanece. Um certo olhar que nos olhará por muito tempo. Que nos fará rever o rosto, as mãos, o azul dos olhos. E em cada peça, uma história de amor. Como se ainda se sentisse o afagar do barro.
Repleto de ideias, invenções, palavras. Também escrevia, mas essa faceta ficou ainda mais íntima do que a escultura.
E mesmo as peças de cerâmica, o seu enlevo, poucas vezes conheceram o domínio público. Não esperava mais reconhecimento do que o prazer de nelas se transfigurar. Nelas afastar medos, esquecer pesadelos, resgatar a infância e enaltecer a mãe.
São parcas as palavras para redigir um homem. Sobretudo porque esse homem era o meu pai.  Por isso ficam algumas das suas obras, hoje aqui expostas, que certamente melhor falarão por ele.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

MEMÓRIA - III

Trazem-me, as palavras, a tua memória. Soltam-se das frases que outros dizem, porque eram tuas. E, de forma inesperada, a lágrima rola.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

As ruas da minha cidade

Passo e não olho. De tal forma é o hábito que descuido as mudanças. Ignoro as fachadas, as tonalidades, as gentes. No entanto, quando a cidade não é a minha, apodero-me dos mais ínfimos pormenores.

E numa estátua que não conhecia, apercebi-me desta indiferença.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

PRIMAVERA - III

Ainda não fui buscar as luvas, mas o casaco comprido já cá canta.

Não pertenço ao grupo dos destemidos que continua a exibir os calções, as sandálias e até mangas caveadas. Como um qualquer desporto radical, desafiam a intempérie.

Quem sabe, conseguem acordar, a Primavera indecisa.