sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sentada no banco

Sentada no banco era uma mulher enorme. Alargando da cabeça aos pés, lembrava o abat-jour de um candeeiro, em que a pequena cabeça, como a lâmpada, estava no topo. E era nessa posição de abandono, e nas migalhas de pão, que iluminava o fim de tarde dos passarinhos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A Mia e o secador

Esteja onde estiver, na varanda, a comer, na perseguição incansável das moscas, a Mia não resiste ao som do secador de cabelo. Olho vidrado, mantendo uma distância de segurança, em posição de ataque ou fuga, quase hipnose, segue os movimentos do aparelho.

E ali permanece atenta, enquanto o secador funcionar, sabe-se lá a pensar em quê!



sábado, 2 de agosto de 2014

O Verão - II

Este tempo ao contrário
Desafia o calendário
Perpetuando o fadário
De um Verão tão arbitrário.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

PARTIDA

De alguma forma tinhas partido algumas semanas atrás, numa noite que seria de festa no Porto, e em que faria seis meses que o teu irmão mais velho nos tinha deixado.

Não sei este tempo, maior que o de outros, mais curto que o de outros tantos, é de preparação para a partida, para quem vai ou para quem fica. Se é um tempo de hesitação, suspenso, se é uma longa insónia, ou uma habituação à dor.

É um mistério, levado por quem parte.

terça-feira, 29 de julho de 2014

A voz humana

Instrumento supremo. Como os outros, demora-se na afinação, sustém-se na modulação do som, subjuga-se à partitura. Como nenhum outro desarmar-nos a emoção, transportando-nos ao âmago.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A Mia na floreira

Aberta estava a janela
Que reina sobre a floreira
Mesmo a chamar por ela
E a Mia saiu lampeira.

Olha para todo o lado
Esfrega o nariz nas flores
Este arejo foi um achado
Novos são estes odores.

Com os sentidos alerta
Permanece na floreira
Pois não quer estragar a oferta
Fazendo uma tola asneira.









domingo, 27 de julho de 2014

PORTO - II

O Porto está diferente. Ganhou a vida das línguas que não falava e das cores que não vestia. Exibe-se para as fotografias, numa alegria redentora.