domingo, 14 de outubro de 2012

COMER



Ver alguém fazer esforço para comer é algo que me dói de forma visceral. Dos recônditos da memória invadem-me, sem que de isso me aperceba, as longas horas da minha infância passadas à mesa.

A mesma luta contra a comida que nunca mais desaparecia do prato. O arroz que era afogado com água, reconstruído num grande círculo, fantasiado num bolo e depois cortado em fatias. Para que assim escorregasse melhor.

O menu que me era apresentado não fazia qualquer diferença, porque inexoravelmente era vítima desta violência gastronómica. Entre mim e a comida não havia qualquer respeito e eu tratava-a com o desprezo que a minha anorexia lhe merecia.

É por isso que quando vejo o teu esforço para comer, a criança sem apetite reaparece, toca-me no braço, e sussurra-me: “Por favor, tira-lhe o prato!”

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