quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dores de cabeça

Tinha tantas dores de cabeça que invadiram o sossego do seu sono.
Sonhou que a sua farta cabeleira aos caracóis caía aos pedaços. E na cabeça pululavam vermes, que saíam de incontáveis feridas. Estranha fantasia esta, engenhosamente produzida nos confins do subconsciente.
A realidade, é que as dores de cabeça em salva que o assolam são consideradas as mais devastadoras de todas. Podem levar um indivíduo a dar com cabeça na parede. Literalmente, não é uma metáfora. Outra classificação, não menos óbvia, é dor de cabeça suicida.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Brincar com as palavras

Brincar com as palavras. Riscá-las. Voltar a escrevê-las. Sorrir. Obrigá-las a alinharem na história que queremos contar. Mudar o texto. Ser outro e o mesmo.

E no fim já não saber se elas contam a realidade vivida ou a inventada, onde subtilmente nos escondemos.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ANATOMIA

Nada mais do que um invólucro. Repito a mim mesma, nada mais do que um invólucro. E no entanto, deitado na mesa de dissecção, hesito em considerar-te um modelo ou um ser humano.

Se neste momento entrasse uma criança no teatro anatómico, parece-me que não lhe causarias qualquer tipo de desconforto. Sem uma perna, hirto e com uma tonalidade castanho acinzentada, assemelhas-te sobretudo a um dos bonecos que habitam nas prateleiras do seu quarto.

Na verdade, não te considero assustador. Aliás, és já demasiado conhecido, o mesmo ao longo de várias gerações de estudantes, para quem tens sido um silencioso professor.

Nada mais que um invólucro, no entanto mostras-me a efemeridade da vida e obrigas-me a enfrentar a realidade da morte. Fico mais ciente de como tudo é temporário e de que o importante é o momento presente. A tua face é jovem e dou por mim a pensar como vieste aqui parar, onde gastaste os teus dias, e até mesmo onde estarás agora.

De certa forma sinto-me uma intrusa, penetrando nesse aglomerado de ossos, músculos e tecido conjuntivo que tão sossegadamente expões. Mas é graças a ti que é mais fácil conhecer os mistérios desta máquina chamada corpo humano. Localizando artérias e veias, qual mapa de uma grande cidade, podemos ver melhor o suporte físico da sua actividade.

Dos meus olhos aguados, irritados pelos vapores de formol, começam a cair algumas lágrimas. Mera reacção fisiológica ou tributo à tua presença?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

IDEIAS

Estranhas entidades que me invadem, vindas do nada, e que prontamente tento decorar, ou registar. Uma frase, um gesto, uma observação, e logo surge uma incontrolável vontade de escrever alguma coisa. Como se, a partir de um dado momento, ganhassem vontade própria.

E assim me interrompem o que faço, até o sono, não me dando tréguas até desaguarem na folha de papel.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

STRESS

Do inglês (porque será que o inglês nos parece sempre uma língua mais simples, com um toque mais científico?), descreve tanto um conjunto de factores que perturbam o normal funcionamento do organismo, como o esforço do mesmo no combate ao seu efeito nefasto. Este esforço é portanto uma reacção normal, benvinda, adaptativa, a tentativa de repor o equilíbrio. Graças a um verdadeiro coktail neuroquímico é fantástico para darmos luta, para a resposta imediata.

No entanto, se mantido por muito tempo, é tudo menos benéfico. Desgasta as nossas reservas energéticas, diminui as nossas defesas. Não foi previsto para durar. Por isso é complicado quando não conseguimos eliminar o que nos desequilibra. Entre diversas maleitas, começamos num lento processo de auto-destruição. Se nos sentirmos verdadeiramente encurralados, podemos até optar por uma forma mais rápida, contrariamente ao que ocorre no mundo animal, onde o suicídio é fenómeno pouco comum (inexistente? A velha história do escorpião que se envenena si próprio quando colocado dentro de um anel de fogo, parece não passar de um mito urbano).

Para meu espanto, à nossa gata, a Mia, foi diagnosticado stress. A esta criatura indolente, que dorme e se espreguiça o dia todo, que tem comida a horas, e sem nada aparente que a incomode. Não sabemos porquê. A menos que, numa atitude solidária, fique com o nosso.

domingo, 29 de janeiro de 2012

COZINHAR

Cozinhar é para mim a tarefa mais interessante das lides domésticas. Porque é uma actividade criativa, que necessita de espírito de iniciativa, curiosidade, trabalho experimental.


Com a vantagem, em relação à ciência, de nos permitir o pleno usufruto do trabalho final.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A gata na caixa

Já teve resmas de papel. Ia para o lixo mas a Mia adoptou-a.
De vez em quando entra suavemente dentro dela e fica a olhar para nós, como quem diz, este espaço é meu. Dona de si mesma, observa, sobranceira, as nossas frenéticas actividades. Provavelmente interroga-se sobre o que nos faz correr.
A Mia na caixa. Não me incomodem. Estou muito bem no meu ponto de vigia.
Também eu, às vezes, gostava de uma caixa assim.