sábado, 18 de fevereiro de 2012

O tomate

Era um tomate muito redondo,bem parecido, fruto das longas tardes de exposição solar.

Quando começou a despontar, procurou que o ramo que o sustentava crescesse mais que os outros. Agora, naquele tomateiro, era ele o primeiro a ser aquecido pelo sol, pouco lhe importando se fazia sombra aos restantes.


Era também o que mais sobressaía. O que era fulcral, pois acalentava o sonho de um dia vir a ser apresentado, numa salada bem confecionada de um famigerado restaurante gourmet.

É certo que, sendo o mais visível e apetitoso podia acabar debicado pelos pássaros. Mas o sonho valia bem o risco.
Finalmente o dia da colheita chegou. O tomate estava muito orgulhoso da sua aparência.

Mas a vida tem destas coisas. Em vez da salada, num lugar distinto, foi misturado com os colegas de aspecto duvidoso, terminando os seus dias como polpa de tomate.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

POBREZINHO II

No mesmo país pobrezinho, com um presidente igualmente pobrezinho, o governo, cansado de tanta pelintrice, qual habitante do bairro de lata com Mercedes à porta, mandou imprimir o seu programa em papel da mais alta qualidade.

Mas faz todo o sentido. Tal como açúcar adicionado a um remédio difícil de engolir, ao caprichar no visual do programa, o governo nada mais fez do que torná-lo mais fácil de ler, perdão, de cumprir, e só o eterno maldizer tipicamente português é que não nos permitiu ver isso de imediato.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A capa do livro

São vários os livros no escaparate. Olho. Não conheço os autores. E no meio de todos há uma capa que me prende olhar.

Não sei definir o que tem ela de apelativo. Certamente uma qualquer sintonia entre o título e a imagem.

Só sei que é naquele livro que pego, em detrimento dos restantes. Como se dele algo mágico emanasse. Como se me pedisse que o tocasse, que o abrisse.

E é o que faço. E depois, na contracapa, leio a sinopse. Se a magia perdurar, o mais certo é eu levar o livro para casa.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

As embalagens vazias

Antes do passo da reciclagem há outro mais importante que as embalagens deviam ter por inerência. Deviam ser previamente treinadas para, quando despidas, pelos diversos utentes, do seu apelativo conteúdo, caminharem ordeiramente para o lixo.

Mas não, teimosamente ficam a arrastar-se pelos armários, pelo balcão da cozinha, em cima das mesas, como se por um qualquer milagre fossem, finalmente, desaparecer em direção ao lixo.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A caixa dos cotonetes

Já viram coisa mais chata do que deixar cair a caixa dos cotonetes?

Dezenas de pauzinhos brancos, que estavam antes muito arrumadinhos na sua caixinha, espalham-se num onda de liberdade. Perdem a sua postura alinhada que lhes dava um encaixe perfeito, ficam desorientados, cada um para o seu lado, e quando queremos agarrá-los, para voltarem à sua prisão, o seu volume é muito maior.


Se queremos pô-los novamente no lugar a que pertencem, temos de o fazer com cuidado, quase um a um. E no final podemos até aperceber-nos que, no seu branco imaculado, vivem agora alguns resíduos do chão da casa de banho, que nem sabíamos que existiam.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

BUROCRACIAS

Não podemos ser piegas mas, pelos vistos, podemos ser ridículos. Redigir e aprovar leis ridículas.

Para se ter direito ao seguro social voluntário (a única segurança social dos bolseiros de investigação deste país, assim uma segurança social de segunda categoria) é preciso apresentar um atestado de aptidão para o trabalho. Nada melhor do que este poder ser passado pelo médico do trabalho, na consulta obrigatória a que se tem de comparecer. Rentabiliza-se o tempo e é-se mais produtivo. Aliás, não foi a isso que se alegou para reduzirem os feriados?

Mas não, numa qualquer inspiração divina, os escribas da lei alteraram, sem qualquer aviso prévio, as condições. E os incautos vão à Segurança Social perder duas horas, apresentam todos vaidosos o atestado obtido no seu local de trabalho, para três semanas depois receberem da digníssima Segurança Social uma carta informando que não serve.

Ora faça lá o favor de cá voltar, perder pelo menos mais duas horitas, se quer realmente ter direito a alguma coisa, e com um atestado dos bons. E esses são passados apenas pelos médicos dos Centros de Saúde e dos Hospitais (mas muita atenção, nunca na urgência, que aí há mais que fazer). Os outros, meus amigos, deitem-nos ao lixo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O silêncio do corpo

Roubei esta frase ao meu pai. Provavelmente ele também a roubou a alguém, o que, segundo o velho adágio, me concede o total perdão por este abuso.
Quando tudo no corpo funciona, vivemos na harmonia fisiológica. Os órgãos entendem-se, cumprem as suas tarefas, e não nos aborrecem com as suas eventuais quezílias. O corpo é, por isso, silencioso.
Com o passar dos anos, começamos a ouvir sinais de alarme. Passamos a ter conhecimento desses órgãos que viviam calados. E aí temos fígado, estômago, um braço que não respeita a hora do sono, um coração que adquire música própria, e ganhamos toda uma orquestra que agora toca sob os augúrios de um maestro duro de ouvido.