domingo, 22 de abril de 2012

Poemas - Chora, meu filho


Chora, meu filho, chora
deixa correr nesse rio
a tua angústia sem hora.
E do teu corpo frio
que sentes como um estranho
liberta no fluir da água
o teu medo sombrio
esse medo sem tamanho.
Permite que floresça na mágoa
a vida que em ti se demora.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Expressões faciais

Li recentemente uma notícia de que os computadores em breve serão capazes de interpretar as expressões faciais humanas.
As expressões faciais, potente veículo de comunicação dos nossos estados emocionais interiores, permite interacção mesmo antes da linguagem verbal. Que o digam os restantes mamíferos.
Foram consideradas como universais por Darwin, mais tarde por Ekman, no entanto estudos recentes questionam esta universalidade, mostrando que cada cultura possui as suas próprias expressões faciais para exprimir emoções básicas.

Somos seres gregários, mas vivemos cada vez mais uma socialidade virtual. Primeiro trocámos os encontros por telefonemas, depois mensagens, e recentemente entretemo-nos a contar a nossa vida nas ditas redes sociais, a pessoas que mal acabámos de conhecer. Convidamos o colega do lado, por e-mail, para vir tomar um café. E, para culminar em beleza, um destes dias vamos transformar o computador em nosso confidente.
Chegamos a casa, ligamo-lo, e ecrã escreve-nos, melhor ainda, sussurra-nos, com voz de GPS, “Estás com má cara, hoje! O que é que correu mal?”

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ainda a escrita

Há dias ia no carro, a escrever um pequeno texto de que necessitava para uma apresentação oral. Como é meu hábito, escrevia rapidamente e com força, deixando a minha criatividade construir um alto-relevo no papel. As ondulações que imprimo ao papel são tão evidentes, que mais parece que estou a tentar obter algum tipo de Braille manuscrito.
É de tal forma que, se o texto for longo, me fica a doer a mão e o braço. Na verdade, tenho muito a agradecer à existência de computadores. Por muito que martele as teclas, nunca fico assim.
Foi então que o meu filho mais novo, que me observava nesta escrita algo alucinada, me disse: “Estamos a tentar escrever, não a pôr o papel inconsciente”.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Poemas - Às vezes é tão difícil sorrir

Às vezes
é tão difícil sorrir
é difícil pôr nos lábios
o desenho da felicidade.
É então que os olhos se tornam pensativos
e se prendem em pequenos objectos,
num copo de vinho,
num rosto desconhecido.

Às vezes sorrir
é disfarçar a lágrima. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Não é um maninho

O que será para uma criança a chegada de um irmão? Obviamente dependerá da sua idade, mas associada à expectativa, à ansiedade, à alegria de vir a ter um companheiro de brincadeiras, haverá algum sentimento de perda, alguma consciência de que o seu mundo vai mudar.

Durante meses é-lhe anunciada a chegada do maninho, esse mesmo que, sem pudor, vai transformando o liso ventre da mãe num imenso balão.

E chega o dia em que, finalmente, vai poder ver o prometido companheiro de brincadeiras. No entanto, muitas vezes, não passa de uma desilusão. Não é um maninho, é um bebé. Só mama, só berra, só chora e ninguém deixa pô-lo a andar de triciclo.

sábado, 14 de abril de 2012

Poemas - Saber ser

Saber ser

Saber ser.
Como a flor
que o sol entontece.
Como o rio
que nunca esmorece.
Como a ave
que quando voa
cresce.

Como a flor
o rio
a ave
não inventar desejos
não despir a inocência
não eternizar o passado
nem temer o futuro.

Saber ser,
em cada momento
e fazer do amor o meu alento.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ainda Auschwitz

Estou a ler a “A última testemunha de Auschwitz”, de Denis Avey, e à medida que o relato se aproxima dos campos de concentração, dou por mim a ver o que senti, espelhado nas palavras do autor.

Eu não estive lá, estive sim no museu/memorial e nos destroços de Bikernau, por isso fico admirada como mesmo assim, a bestialidade que o memorial emana ainda é tão forte. A ponto de as imagens, as palavras, que na altura emergiram misturadas com lágrimas que não reprimi, serem as mesmas de quem sobreviveu àquela miséria humana.



E assim, tomei novamente consciência da importância do memorial.