quarta-feira, 18 de junho de 2014

PORTO

É aqui que eu me apaixono. Na travessia da ponte, sob a luz do fim de tarde, a cidade cativa-me. Senhora do rio, desnuda-se na espera do ocaso.

E é neste breve instante que sinto o quanto lhe pertenço.

Fotografia de Mário Gomes

sábado, 14 de junho de 2014

Concerto para piano e orquestra

Em cada nota uma carícia. No enlevo, responde o violino. Embala-se o corpo na melodia. Suspende-se a orquestra no monólogo do piano. Reúnem-se os instrumentos na apoteose da batuta.

(Franz Liszt: Concerto n.º 1 em Mib Maior para Piano e Orquestra)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

FRONTEIRAS

Por natureza, não sei estabelecer fronteiras. Reajo à novidade, de braços abertos. Ideias, situações, pessoas. Proporciono um livre-trânsito, não exijo um passaporte para a amizade.

Fruto desta sinalização errada, rapidamente me invadem, traem e esperam de mim o que não posso dar. E quando recuo, sentem-se defraudados.

Devo aprender a prudência.

domingo, 8 de junho de 2014

INÉRCIA

É a inércia que me impede de avançar. Como qualquer outro corpo, resisto à alteração do meu estado, anestesiada na indolência de um não começo.

Mas uma vez vencida a inércia, dominado o meu atrito interior, o pensamento flui. Ideias, imagens, palavras, personagens, rolam no meu âmago e a história constrói-se.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Memória (ou a falta dela)

Hoje encontrei o relógio, perdido em casa há várias semanas. Uma saliência no bolso de umas calças que não usava há muito tempo.

Reconstitui. Sussurrava a voz das coisas perdidas. Mas reconstituir o quê, se o cérebro se entreteve noutras divagações, enquanto comandava gestos sem registo?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A cidade

Hoje olho a cidade com o encantamento de outros olhos. Deslumbra-me através desses olhos curiosos, vindos de outras paragens, que a olham pela primeira vez.


Fotografias de Mário Gomes

domingo, 1 de junho de 2014

Exposição na Unicepe – Homenagem a Dario Boaventura

Todos gostamos de deixar marcas da nossa passagem. Parte de nós assim permanece nos descendentes. Expressões, palavras e gestos, aptidões.
Mas no artista, há a obra que permanece. Um certo olhar que nos olhará por muito tempo. Que nos fará rever o rosto, as mãos, o azul dos olhos. E em cada peça, uma história de amor. Como se ainda se sentisse o afagar do barro.
Repleto de ideias, invenções, palavras. Também escrevia, mas essa faceta ficou ainda mais íntima do que a escultura.
E mesmo as peças de cerâmica, o seu enlevo, poucas vezes conheceram o domínio público. Não esperava mais reconhecimento do que o prazer de nelas se transfigurar. Nelas afastar medos, esquecer pesadelos, resgatar a infância e enaltecer a mãe.
São parcas as palavras para redigir um homem. Sobretudo porque esse homem era o meu pai.  Por isso ficam algumas das suas obras, hoje aqui expostas, que certamente melhor falarão por ele.