domingo, 4 de janeiro de 2015

PASSADEIRAS

- Esta passadeira é perigosa – disse ela, quando o carro quase não parara.
- Todas as passadeiras são perigosas – respondeu ele.

Era verdade. Atravessa-se com base na confiança, no acordo tácito de que o veículo nos cede a passagem. Mas o outro, poderoso no seu deslocamento rápido, não está lá para nós.


sábado, 3 de janeiro de 2015

Sol e sombra

Não fosse o sol e nunca veríamos a sombra. Ficaríamos pobres de contrastes. 

















À mesa

Diz o primeiro:
- Isto é peru? Outra vez? É seco.
- Não. É porco. Ou porca. – Diz a cozinheira.
- Mas, ao que consta, era muito amigo de um peru. – Remata o filho.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

DOENÇA – II

O que a doença faz a um homem... No rosto só o olhar permaneceu. Foi aí, entre rugas e tremuras, que o senti familiar. Depois veio um nome que não encaixava naquela magreza, na hesitação do andar, na tristeza dos dias.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ano Novo - IV

Dizem que esperavam cem mil. E que afinal éramos mais. E já nem frio se sentia, um mar de gente, ondas de amigos. Saltaram rolhas ainda antes do fim do ano, muitos contavam passas que punham na boca. Um casal tinha mesmo uvas frescas; passado era o ano. Lidavam com o problemas de quando as pôr na boca, porque eram grandes: uvas brancas.

Contagem descrescente. Votos de Bom Ano, beijos, abraços. Dos recônditos da memória lembro-me do David, pequenino, que repetia (como percebia) os votos de Bom Ano: eu amo, eu amo.

E o fogo, que do escuro, liberta o esplendor da minha cidade.



Ano Novo - III

Há datas que nos obrigam a ser felizes. Rainhas do calendário, onde têm a primazia dos dias especiais, exigem festejo, sob pena de desnudarem a solidão.



ASSUNTO

O assunto tinha pano para mangas. Como não era alfaiate resolveu permanecer em silêncio.