sábado, 5 de março de 2016

OPINIÃO

Opinava muito. Era uma tarefa que lhe dava muito trabalho, porque procurava estudar a fundo os mais diversos assuntos. Mas nada lhe dava tanto prazer: ter sempre algo a dizer qualquer que fosse o assunto, nunca ser apanhado de surpresa, quer a conversa fosse sobre intricados temas filosóficos, sobre o habitat das minhocas, ou sobre as tricas e laricas das notícias de cordel.

Onde chegava, rapidamente se tornava o centro das atenções, com o discurso fluido do perito. “Como é que ele sabe tanta coisa?”: ouvia murmurar à sua volta e sentia-se invadido por uma onda de satisfação. O problema é que, pouco a pouco, percebeu que os outros se afastavam.


Corria o risco de acabar a falar para as paredes. Para que isso não acontecesse resolveu adoptar um gato: é bom ouvinte e se, por acaso, resolve contrapô-lo, cinge-se a uns breves miados.


sexta-feira, 4 de março de 2016

AFECTOS

Primeiro, banalizámos a palavra amor. Fizemos dela nome próprio, parangona publicitária, dia marcado para mostrar o quanto amamos.
Depois, foi a palavra amigo. Dissipámos tanto a fronteira entre o real e o imaginário que entrámos na loucura dos afectos. Ao ponto de, para nos aproximarmos ou afastarmos, bastar clicar num botão.



quinta-feira, 3 de março de 2016

Final feliz

Apagar-se devagarinho. Despedir-se lentamente como a chama de uma vela. De preferência acompanhado ou, pelo menos, sem sentir sozinho. Essa sim, seria uma boa maneira de terminar a história.


quarta-feira, 2 de março de 2016

VIDA - II

Nada lhe corria bem. Ou, pelo menos, como esperara. A vida dera tantas voltas que, por momentos, julgou voltar ao princípio. Mas o enredo fez-se claro quando decidiu ser feliz.


terça-feira, 1 de março de 2016

OLHARES

Na inutilidade das palavras (que às vezes ainda pronunciamos, no vício da ininteligibilidade da comunicação humana) entregamo-nos ao olhar.











segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ÁRVORES-X

Velam os caminhos: tão despidas agora quanto frondosas foram no tempo da Primavera. Em subtis movimentos saúdam os caminheiros.







domingo, 28 de fevereiro de 2016

VERDE - II

Tanto verde lembra-me sempre o meu pai que, perante uma paisagem como esta, disse que gostava de ser vaca. Para, tal como ela, se poder entregar ao deleite de a pastar.