sábado, 5 de março de 2016

OPINIÃO

Opinava muito. Era uma tarefa que lhe dava muito trabalho, porque procurava estudar a fundo os mais diversos assuntos. Mas nada lhe dava tanto prazer: ter sempre algo a dizer qualquer que fosse o assunto, nunca ser apanhado de surpresa, quer a conversa fosse sobre intricados temas filosóficos, sobre o habitat das minhocas, ou sobre as tricas e laricas das notícias de cordel.

Onde chegava, rapidamente se tornava o centro das atenções, com o discurso fluido do perito. “Como é que ele sabe tanta coisa?”: ouvia murmurar à sua volta e sentia-se invadido por uma onda de satisfação. O problema é que, pouco a pouco, percebeu que os outros se afastavam.


Corria o risco de acabar a falar para as paredes. Para que isso não acontecesse resolveu adoptar um gato: é bom ouvinte e se, por acaso, resolve contrapô-lo, cinge-se a uns breves miados.


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