domingo, 11 de março de 2012

Odores

Numa hora imprópria, lanchávamos, a conversa desviou-se para os odores corporais, mais propriamente para os maus odores. Vá-se lá saber porquê.

A sensibilidade olfactiva, tal como todas as nossas características, era muito diversa. Do cheiro a suor, a ranço (provavelmente apanágio de um corpo / roupa com hidrofobia) até aos odores que fogem ao nosso controle, como o das feridas infectadas, cada um tolerava como podia.

E assim se passou a hora do lanche.

sábado, 10 de março de 2012

A roupa no varal


Com o vento as camisas esbracejavam no varal. E era um montão de roupa para passar, arrumar e, em breve, voltar a lavar.

                                                           Fotografia de Mário Gomes

A roupa revolteava. Ela não. Não havia tempo para se lembrar como o amor, promessa de liberdade, se transformara na sua prisão.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ecografia

Cheguei às 8h30. Aliás às 8h15, com os 15 minutos de antecedência recomendados. De nada me serviu porque, após esperar por vários internamentos já fui atendida no guiché fora de horas. “Pode sentar-se que o médico chama.”
Obedeci. Eu e mais uns quantos que já aqui apodreciam antes de mim. Entretanto, a única funcionária do guiché desapareceu, há todo um vai e vem de personagens a entrar e sair, mas ninguém chama ninguém.
O espaço é agradável, sofás coloridos. Já várias vezes passaram os mesmos auxiliares, com macas, oxigénio, trouxas de roupa. Partilham o estranho fenómeno de serem altos. Será que neste serviço, em vez de cirurgia vascular, fazem crescer as pessoas?
Veio agora um enorme caixote do lixo, “transporte de resíduos”. É na verdade o que já nos sentimos, por isso não ficaria espantada se me dissessem para nele entrar. Segue-se o carrinho da limpeza, o da comida, pena que não haja o da paciência. E talvez por isso a minha vizinha da frente lê a “Bíblia Sagrada”.
Duas horas depois, fui finalmente aviada, mas não antes de eu ter ido reclamar.

terça-feira, 6 de março de 2012

A avó

Uma avó que ficasse cá em casa para sempre. Era o que eu pedia à minha mãe. A avó estava longe, mas era totalmente minha de vez em quando.
Fazíamos malha. Foi a avó que me ensinou, com agulhas sem barbela. Os erros, os chamados gatos (será porque os gatos gostam de perturbar esta actividade, emaranhando os novelos?) era ela que os desfazia.
Legou-me a rapidez do trabalho. Eu era o seu capataz. “Só fizeste isso?” Mas na verdade a avó já estava na outra manga. Fazia tudo o que lhe pedíssemos, vestiu-nos durante anos, lindas camisolas dignas das revistas.
Outro encanto eram as histórias. “Conta-me as histórias de quando o meu pai era pequenino…” O meu tio que rachou a cabeça no pote, o meu pai que começou a sua actividade de escultor com o conteúdo da fralda. E mais para trás, o linguado da cerimónia, na mesa das tias-avós, então moças casadoiras, que de tanto ser recusado acabou no chão da sala.
Fosse nas histórias, ou na malha, toda a avó era ternura e paciência. Fica-me a imensa saudade.

domingo, 4 de março de 2012

A gata que arrulha

A Mia, desde que chegou cá a casa há cerca de um ano, que tem um ronronar que, no mínimo, é sui generis. Arrulha. Parece uma daquelas ocarinas de água, em que se sopra e o gorgolejar da água emite o som de um passarinho. Quanto mais satisfeita, maior é a intensidade do seu arrulhar.
Será uma crise de identidade? Achar-se-á uma rola? É verdade que, sendo gata, cujo movimento felino não desmente, não gosta de peixe. Cozido ainda vai algum. Cru, depois de devidamente cheirado, é votado ao desprezo. Observa-me, abre e fecha a boca, sem miar, como que a dizer: “Não vês que os pássaros não comem peixe?”



Se calhar é melhor dar-lhe alpista…

sexta-feira, 2 de março de 2012

Cheira a terra molhada

Choveu. Chuva tímida, é verdade, coisa pouca após tanta espera. Não justificou o passeio dos guarda-chuvas, não saciou as plantas, não deixou marcas nos pavimentos. Nem se ouviu.
Dei conta pelo intenso cheiro a terra molhada. Como se de um dia de fim de Verão se tratasse. Que inalado me trouxe a imensa alegria da vida.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O difícil despertar

Sete da manhã. Começa a sinfonia dos vários despertadores. Alguns mais “zombies” que outros, começam a circular pela casa.
O dom da linguagem não existe a esta hora matutina. Se faço perguntas (quem no seu perfeito juízo faz perguntas a esta hora?), respondem-me grunhidos. Chego a ter dúvidas se acordei entre membros da espécie humana.
Mas a culpa é minha. Como é possível acordar com toda a energia que eu emano? Como? É a interrogação que se espelha nos olhos inchados e cabeleiras desgrenhadas que me rodeiam.