sábado, 24 de março de 2012

Em casa da tia

Em casa da tia havia ginjinha. A tia não a bebia, mas fazia para os outros. Como muitas outras coisas que ela fazia para os outros.

Nós, as crianças, também não a bebíamos, claro, mas “roubávamos” as ginjas, com umas longas colheres de plástico, próprias para o efeito.

Era quase mágico, a cor da bebida, as ginjas doces e alcoólicas, as garrafas de vidro sempre tão bonitas, o prazer do fruto e daquele furto consentido.

E de todos os momentos preciosos que a tia nos proporcionou, a saudade desencantou o sabor das ginjas.

quarta-feira, 21 de março de 2012

SAÚDE

Alguém disse que a saúde é um estado transitório que não inspira nada de bom. Posso não estar a ser fiel às palavras originais, mas sou-o à ideia.

É certo que esta frase traduz um forte exagero, já que por natureza, o nosso organismo é saudável, com os diversos sistemas, quais notas na partitura, construindo a nossa música de fundo. Ou o silêncio do corpo, como também alguém já referiu.

Mas é olhando para ti, tão frágil, e ao mesmo tempo tão sereno (e tão bonito), na luta contra uma febre de origem desconhecida, que esta tua frase predilecta me vem à ideia.

segunda-feira, 19 de março de 2012

RIMAR

Rimar nunca foi comigo
regras para escrever
não fazem sentido.

Deixar as palavras fluir
procurar a sua cadência
não ter de as repelir
por falta de anuência.

Mas se quero um ritmo
à laia de canção
rendo-me à evidência
de que as rimas têm razão.

sábado, 17 de março de 2012

CORAÇÃO

Contracção. Relaxamento. Contracção. Relaxamento. A um ritmo quase musical bombeia o sangue no organismo. Nada mais típico de uma máquina afinada, então porque é tido como refúgio dos nossos sentimentos? Talvez por ser o coração um órgão vital para todo o corpo.



Numa aparente encontro entre ficção e realidade sabe-se cada vez mais que o coração e o cérebro estabelecem no nosso corpo um constante diálogo, influenciando-se mutuamente. Raiva, ansiedade, frustração, desafinam esta máquina, causando no coração padrões erráticos de batimento. Com o tempo podem causar sérios problemas de saúde.

Não sei se o tempo nos virá a mostrar que o coração é algo mais do que uma bomba propulsora, é parte da nossa essência. Isso poderá tornar estranho o transplante cardíaco, mas fará o coração ganhar o que a tradição popular sempre lhe atribuíu.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Amizades

Levei tempo, talvez demasiado tempo, mas tenho vindo a reencontrar as velhas amizades. E dou-me conta que, apesar do tempo, continua tudo lá. Nós somos outros, no entanto mantivemos muito do que partilhámos, e representamos ainda um elo seguro nesta corrente do tempo.
Chega até a ser estranho, passadas tantas rugas, com vidas tão distantes, reatarmos diálogos, como se tivéssemos acabado de nos afastar.

terça-feira, 13 de março de 2012

Tinha 19 anos...

A Teresa tinha 19 anos, uma vida pela frente, um aborto que não correu bem, e sobretudo a angústia da decisão tomada.

Com que direito aquele ser indesejado se tinha instalado anonimamente no seu ventre, disposto a roubar-lhe os sonhos? Mas por outro lado, como seria ele? Como não sentir que estava presa nessa teia, que já os unia, desde o primeiro momento em que o adivinhou?

Falou com a companheira do quarto. Partilhar o fardo da angústia poderia trazer-lhe alívio, apesar de nada saber dela, a não ser que se chamava Luísa e que acabara de ter um bebé. E isso tornava a sua dor ainda mais penosa. Mas uma desconhecida, limitar-se-ia a ouvir, sem se aventurar nas críticas que só a confiança permite.

Estava tão triste, tão desapoiada… Parte dela lutava ainda por esse bebé que já não existia, apesar da negação dos pais e do namorado.

A Luísa ouviu-a, mas não teve a coragem de lhe dizer o quanto entendia a sua angústia.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Os óculos

Sendo-me indispensáveis (pelo menos se eu quiser continuar a ter as letras no meu mundo), sinto-os como um empecilho. Não consigo ignorá-los e o incómodo é tal que todas as oportunidades são boas para deles me livrar. Cozinhar, comer, andar na rua. E lá vão ficando perdidos nas mais diversas paragens. E, invariavelmente, vou andar à sua procura.



No entanto, com o aumento da presbiopia (vulgo vista cansada), já não posso manter esta independência. Já não vejo as espinhas do peixe, não leio os rótulos das embalagens, não vejo as mensagens do telemóvel.

E mais não me resta do que aceitar que este objecto, aparente barreira entre mim e o mundo, é a muleta que nele me permite continuar a caminhar.