terça-feira, 10 de abril de 2012

RECORDAÇÕES



As recordações, ninguém mas pode tirar. Mas certamente que as vou distorcendo com os anos e o que guardo no coração poderá não ser o que realmente aconteceu.

Às vezes vêm mais doces, limadas pelas agruras dos anos que se lhes seguiram, e libertam um sorriso ou uma lágrima. Outras vezes ficam pesadas e quase me afundam no mar do desalento.

Mas pertencem-me e posso ir buscá-las quando quiser.

De qualquer forma, como têm o valor que eu lhes quiser dar, estou a pensar usá-las de forma mais benéfica. Usá-las para não perder a criança cá dentro, os sonhos, as gargalhadas espontâneas. As mais duras, tirar delas as lições necessárias, dar sentido ao sofrimento, e nada mais.

domingo, 8 de abril de 2012

Poemas com rima – A vida que eu aqui trago

A vida que eu aqui trago
escondida no meu regaço
é para os outros fruto amargo
de um não muito longo abraço.

Mas tão logo me enredou
num elo sem retorno
e de quem não me amou
só espera o abandono.

De mim terá para sempre
o amor que conquistou
desde que habita o meu ventre.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

SOBREVIVÊNCIA

O ser humano habitua-se a tudo. Sobrevivemos às piores condições e raramente desistimos.

É para mim, todavia, uma surpresa ver como situações que anteriormente consideraríamos como degradantes, passam a ser interiorizadas como normais. E às vezes até  conseguimos achar  que são uma mais-valia.

É bom que assim seja, já que nos permite ultrapassar as mais cruciais dificuldades.

Mas, para quem está de fora, não deixa de ser estranho.

sábado, 31 de março de 2012

Ainda o envelhecimento

É estranho como, quando envelhecemos, mudamos tanto de fisionomia, a ponto de outros rostos familiares se apropriarem do nosso rosto.

Olho para ti e vejo a avó, e essa confusão de seres é ao mesmo tempo perturbadora e agradável. Já vi isto acontecer com outras pessoas, mas tu és a que me está mais próxima.

Os gestos, o olhar, o sorriso. Não sei se a velhice tem algum poder uniformizador.

terça-feira, 27 de março de 2012

A espécie humana

Como espécie, não somos grande coisa. Tornámos vulgar o que os outros animais raramente fazem – matar os seus pares. E quando o fazem é em situações extremas. Lutar por uma fêmea disponível (o que nem sempre é o nosso caso, que muito gostamos de cobiçar a do parceiro), para poder acasalar. Defender a prole ou a comunidade.

Nós somos pródigos em conflitos. Será porque, há quem diga, estamos mais adequados a viver em pequenos grupos sociais de não mais de 150 indivíduos, e em vez disso construímos aglomerados gigantescos, onde nem sequer conhecemos os 150 humanos mais próximos?

Estranha evolução esta, que nos premiou com a capacidade de pensar, para agora discorrermos sobre a melhor forma de nos liquidarmos uns aos outros.




segunda-feira, 26 de março de 2012

Ainda a tia

A tia andava sempre bem vestida. Tinha roupa e adereços muito bonitos. A vida levou-lhe o amor, mas ela não deixou que lhe trouxesse a amargura.
Nós fomos os filhos que não teve. Eterna cuidadora, não quis que ninguém cuidasse dela. Por isso, partiu como sempre viveu, independente.

domingo, 25 de março de 2012

MEMÓRIAS

Enche-se-me a cabeça de memórias nestes dias difíceis. Sensações. Odores. Gestos. Rostos que já não vejo. Refúgio da saudade e da melancolia, a infância vem adormecer o meu sofrimento.

Tentativa vã de preservar o que já não existe.