quarta-feira, 23 de maio de 2012

Poemas com rima - Pelas terras de Portugal


Estava eu em Alfafar
A ver o tempo passar
Mas fui à Lagoa de Podentes
Porque me doía os dentes.

O dentista bem pegou na pinça
Mas fugi para Chainça
E ainda se me arrepiava o pêlo
Quando subi ao Germanelo.

Dali vi Casais do Cabra
Sempre com a dor macabra
Então virei para Gocinas
Em busca de outras medicinas.

E num curandeiro em Viavai
Não pude  dar nem um ai
Mas livrei-me do meu mal
Antes de chegar a Favacal.

Depois de tantos desenganos
Fui descansar para Portelanos
Terminei com um bom doce
Numa esplanada em Chão de Couce.

terça-feira, 22 de maio de 2012

CONFIANÇA

Existem os desconfiados e os demasiados crédulos. Os primeiros são tidos como exagerados, vendo perigo em tudo, achando que qualquer pequeno gesto de simpatia esconde uma terrível ameaça. Os segundos, com a sua bonomia e a inabalável fé na espécie humana, entregam-se inocentemente aos outros, porque acham que no fundo somos todos boas pessoas.
Os desconfiados serão, certamente, menos felizes, menos sociáveis, mais solitários. Os demasiado crédulos são as pessoas de quem se gosta, com quem se fala, mas que mais frequentemente podem terminar os seus dias com uma facada inesperada.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O tempo


Este tempo tem problemas de próstata. No Inverno, a sua imensa bexiga começou a acumular chuva e, por força de alguma infecção, ou de outra causa menos conhecida, a próstata não a deixou esvaziar.

Finalmente, depois de inúmeras mezinhas (danças da chuva incluídas), chegou o alívio para tão incómoda e prolongada doença. Mas, tal como a maleita foi duradoura, a cura também o é, já que a próstata tem diminuído de forma lenta, obrigando a chuva a sair às pinguinhas, ocupando selvaticamente a incauta Primavera.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

PAPOILA


Com o seu vestido vermelho levemente amarrotado, deixando-se embalar por qualquer brisa suave, tem um ar frágil e delicado. No entanto a sua cápsula, quando ainda verde, alberga um suco poderoso, capaz de nos levar a um estado onde a realidade e fantasia se confundem, e por isso é também conhecida como a planta da alegria.

Mas o ópio, como muitas outras drogas, faz do ser humano um prisioneiro, transformando a paz inicial num espinhoso pesadelo.



Talvez, naquela aparência de flor ingénua, o vermelho seja o aviso.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Sentido de orientação


Conheço alguém que continuamente se perde. De carro (talvez o mais compreensível, e para isso tem a ajuda do GPS), de bicicleta, a pé. Caminha muitas vezes em sentido contrário, só se apercebendo alguns quilómetros depois, mesmo levando um mapa.

A mesma pessoa, numa cidade desconhecida, não padece do mesmo desatino, facto que me intrigava. Resolvi, por isso questioná-lo.

Com o seu meio sorriso, disse que, na sua cidade natal, onde tudo lhe é familiar, qualquer coisa se passa na sua cabeça que o leva a pensar que sabe onde está. Que reconhece. E assim se entrega ao seu passeio (devaneio?) predestinado ao engano.



Numa metrópole que nunca viu, munido do mapa, está atento ao traçado das ruas, às placas, não incorre em fantasias. Usa, finalmente, o seu sentido de orientação.

domingo, 13 de maio de 2012

Domingo de manhã


Domingo de manhã, na aldeia. Chega a carrinha do pão. Entre as rocas e as borlas de Berlim, põem-se as conversas em dia. “O marido da vizinha, que parecia tão bem, tinha deixado de fumar há quatro anos, e não é que lhe deu um ataque que o deixou paralisado?”

Já têm o pão para o pequeno-almoço, fresquinho, vão-se embora.

As conversas sobre os seus problemas e a desgraça alheia, pode bem prosseguir depois da missa.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Em frente à praia


Finamente sol. Um odor a maresia que me penetra a alma. Como se as algas tivessem acordado no pico do seu esplendor.

O mar é uma das minhas paixões. O constante vaivém das ondas parece-me o vaivém das emoções.


Imagem de força, tem algo de misterioso no seu revolto movimento, que me assusta e me atrai.