sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Verão

Verão que alguém se esqueceu de encomendar o Verão. Ou então não foi pago nos 30 dias e houve lugar a devolução.
Certo é que foi necessário, retirar do armário, os dias cinzentos. Sacudir-lhes o pó, arejá-los, e lá estão de novo a uso, não é um abuso, é que os tempos estão difíceis.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

BOCEJO


Bocejou. Uma inspiração profunda que lhe permitiu preencher de ar os alvéolos colapsados que, com os movimentos respiratórios costumeiros, ficam fechados. A entrada deste oxigénio adicional fê-lo ficar mais desperto, clarificar as ideias.

Bocejou novamente. Agora espreguiçando-se, alongando os músculos tensos do pescoço e das costas. Olhou para o computador, o cérebro revigorado.

Sorriu. Todas aquelas atitudes, fisiologicamente benéficas, só eram possíveis na solidão do seu gabinete. Seriam totalmente inaceitáveis na reunião que se avizinhava!

terça-feira, 12 de junho de 2012

O soluço


Há ainda muitas coisas que não sabemos sobre a maravilhosa máquina humana. Um desses mistérios é o soluço.

Tem, nos livros, uma definição pomposa - contracção espasmódica do diafragma, acompanhada do fecho da glote, que não obedece a nenhum propósito conhecido. Que é como quem diz, o diafragma, o músculo que separa o tórax do abdómen, volta e meia contrai-se, e ninguém sabe porquê ou para quê.

Sabemos apenas que pode ser muito incómodo. Talvez por isso existam inúmeros conselhos para acabar com o soluço: um susto, beber vários goles de água sem parar, prender a respiração, comer uma colher de açúcar. Com mais ou menos floreados, por trás de muitas destas dicas está a suspensão da entrada e saída de ar. Aumentamos assim a quantidade de dióxido de carbono no organismo, um dos possíveis tratamentos médicos do soluço.

O soluço pode ser muito chato, provocando um ritmado saltitar do corpo e a emissão de sons mais ou menos desagradáveis. Nalguns casos, felizmente raros, pode até prolongar-se por horas, dias ou semanas.

E nem sabemos porque é que existe!

sábado, 9 de junho de 2012

A menopausa


Mas por que motivo a ovulação não para simplesmente, sem grande alarido, como o comboio que chegou ao fim da viagem? Um apito final, vá lá, anunciando que aquele veículo já não sai mais da estação.

Não senhor, há que fazer altas despedidas, baralhar a casa toda, como se a diminuição das hormonas fosse algo a comemorar. É todo um festival - cabelos que caem, pelos que aparecem onde não devem, dores várias, calor quando está frio, uma tristeza repentina que não se sabe de onde vem. Enfim, um sem número de sintomas. Aliás qualquer um se encaixa, tal é rol dos descritos para a menopausa.

No homem, o declínio da fertilidade é suave, e não tem necessariamente um ponto final. Biologicamente faz sentido, pois não é o homem que tem de carregar e nutrir uma nova vida, por isso pode continuar a espalhar uns quantos espermatozoides, aqui e ali, que eventualmente ainda podem vir a ser albergados por um ventre jovem e fértil.

Entende-se, então, o fim da fertilidade feminina como uma atitude razoável. Mas, convenhamos, que podia ter sido concebido de uma forma mais simpática. Acabou. Ponto. Nada de agonias lentas.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Lentes



Alguns passam pela vida como se esta fosse uma festa. Os convidados não agradam? Afastamo-nos até à varanda. A comida era fraquinha? Talvez possamos comer melhor noutra ocasião.

Adaptam-se às circunstâncias e, com a paz que lhes assiste, procuram o lado positivo de tudo.

Outros parecem fazer o contrário. Qualquer contratempo é motivo de desespero. A conquista não é desfrutada porque pode ser efémera. E, como se usassem algum tipo de lentes especiais, só vêem o lado negro de tudo.

Se calhar, bem fariam em mudar de lentes. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A enxaqueca

Sentia-se incapaz de pensar. As palavras, os pensamentos, continuavam a arrumar-se da forma habitual, dentro da cabeça, mas nada passava cá para fora.
Articulava um discurso repetitivo, vazio, incompreensível. Toda a capacidade de comunicar reduzida a uma gaguez que o assustava. E assustava ainda mais quem o tentava ouvir.
As palavras escritas também não ajudavam. Lia. Tinha consciência de que estava a ler, que os sinais eram descodificados, mas no final nada restava do que tinha lido. Não havia significado.
Em contrapartida os sons ganhavam novas dimensões, e os odores, até aí desapercebidos, começavam a incomodar.
Nesta fase a cabeça ainda não doía. Havia as luzinhas, é certo, o campo visual desfocado, mas ausência de dor. O que tornava, o que é conhecido como enxaqueca, uma entidade ainda mais estranha.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Matutar


Não há coisa pior do que matutar. Se houvesse uma ordem de matutadores eu devia ter lá lugar cativo.

Quero adormecer, mas o cérebro não obedece. Quer fazer prevalecer a sua vontade. Resiste ao cansaço, à fisiologia do organismo. E os pensamentos enredam-me, como droga sem êxtase. Entro num círculo vicioso, não quero saber de mais nada, a ressaca virá depois.