sábado, 28 de fevereiro de 2015

TURISTAS

Chegam aos magotes. Ocupam, sem pudor, dois lugares no Metro, que a mala é grande e, cansados, querem sentar-se. Vêm à descoberta do Porto, recente conquista dos guias turísticos.
Mistura-se-me o orgulho das minhas ruas, das sombras, da luz do rio, do longo desmaiar do sol na Foz, com o egoísmo da posse. Temo que a cidade, tão minha, lhes possa ser alheia nas pequenas nuances, que se possa perder na indiferença das objectivas.
É algo sem nexo porque, turista eu mesma, sei como adoptei com enlevo as cores das cidades que visitei.












quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

DEMÊNCIA

No momento em que a mente o começou a trair perdeu-se na dimensão da tragédia. Com o correr dos dias, eram os outros que sofriam. Ele: já não. Os outros agarravam-se a memórias, a outras imagens, fantasiando outra pessoa naquele farrapo de homem que, irreconhecível, lhes sorria.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

SERENIDADE - II

Não tinha tempo: na constante correria e sobressaltos daquilo que chamam vida. Mas quando o dia lhe devassou a alma, quando contemplou os contornos que a aurora lhe devolvia, percebeu que uns minutos parada lhe traziam horas de sossego.




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

domingo, 22 de fevereiro de 2015

PORTO - III

Chega a noite e a cidade não perde o seu encanto. Acendem-se as luzes na despedida do dia: a cidade ganha uma alma nova. No fundo negro, contra a lua crescente, as gaivotas, aproveitando  a fria brisa, são asas brancas num sonoro bailado.

Fotografia de Mário Gomes

Fotografia de Mário Gomes

Fotografia de Mário Gomes


sábado, 21 de fevereiro de 2015

PASSADEIRAS - II

Também conhecidas por zebras, dado o seu maravilhoso desenho (sem autorização das zebras, claro). Destinam-se a que aqueles que se movimentam pelo seu pé (está bem de ver porque se chamam peões) se possam atravessar na vida dos que usam veículos. É um direito dos caminhantes, um dever dos condutores. Mas, na maior parte das vezes, é isso que estes acham: que os primeiros se lhes atravessam na vida. E demonstram-no de forma clara: não nos olham, não abrandam, e até aceleram, como um qualquer mamífero a intimidar o adversário.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

RECEITA

Eram claras em castelo. A receita dizia claramente.  Para a Clara, que nunca gostara de castelos no ar, esse castelo bem firme, descartando as gemas, não fazia sentido. Com um profundo suspiro, bateu os  ovos por igual e fez uma omelete.

Fotografia de Mário Gomes

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

INSÓNIA - V

Deitou-se. Apagou a luz. Apercebeu-se que não tinha sono. Um rodopio de pensamentos atravessava-lhe o sossego. Foi nessa altura que o gato, espreguiçando-se num passo adivinho, veio enroscar-se ao seu lado. Acariciou-o. Pôde então adormecer no compasso do melódico ronronar.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

CAMINHADA

A melhor caminhada é aquela que nos leva a lugar nenhum. Aquela que nos traz de volta o silêncio. Aquela que tantas vezes não sabemos que iniciámos.

E nada melhor do que a natureza para nos dar o  mote.









VER

Percebes que estás a ver mal quando sais de casa, pegas no telemóvel, descobres que te esqueceste dos óculos, voltas a casa, e o adereço que procuras ri-se de ti em cima do teu nariz.
O que não queres ver?


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CARNAVAL

Deve ser mesmo Carnaval. Para uns é folia, outros trabalham. E ninguém leva a mal.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

domingo, 15 de fevereiro de 2015

FELICIDADE -II

Sentava-se no colo. Acomodava-se. Fechava os olhos. A felicidade que sentia transparecia no cadenciado ronronar.







sábado, 14 de fevereiro de 2015

As portas

São grandes, estreitas, coloridas, sóbrias. Há quem bata com elas ou quem as abra com suavidade.
Protegem-nos, estabelecem limites, convidam a entrar.