Não
era possível que agora tivesse de usar o ponto e vírgula! Toda a vida se
deliciara em discursos longos, pautados por inúmeras vírgulas, onde amiúde se
insurgiam alguns pontos finais. Admitia alguns pontos de interrogação, poucos,
porque não gostava de se questionar. Dois pontos e travessões podiam ter
direito a atravessar a sua escrita, se provassem ser necessários. Quanto aos
parêntesis eram benvindos, porque se perdia em sucessivos considerandos, que
muito beneficiavam da ordenação destes emparelhados sinais de pontuação.
Mas o
ponto e vírgula? Foneticamente era uma
pausa longa, indubitavelmente mais longa que a da prosaica vírgula. E, entre
vírgulas, certas palavras deixavam as pausas ao cuidado do leitor. Era o leitor que tinha de lhes dar sentido, demorando-se
a seu belo prazer nas palavras, da forma que mais lhe aprouvesse. Desta forma
investia o leitor de um poder de que não queria prescindir.
Mas,
esteticamente, o ponto e vírgula era uma figurinha triste, algo indefinida, nem
ponto nem vírgula. Esta veemente afirmação da indefinição perturbava-lhe a
escrita que sempre fora muito decidida. Escrevia ao correr da pena (ou melhor, da tecla) à medida que as palavras inundavam o seu pensamento.
Não voltava atrás, não reescrevia, e até o corrector do computador lhe poupava
ter de voltar a ler o texto. Na escrita, como na vida, não se permitia
hesitações.
Estava,
assim, perante um dilema. Se aceitasse a necessidade do ponto e vírgula seria
conivente da indefinição. Abriria caminho ao
retrocesso, ao refazer de textos, a sabe-se lá mais o quê. Por outro
lado o ponto e vírgula trar-lhe-ia o benefício de dominar as pausas da leitura,
fazendo dele um melhor escritor (ou escrevente).
Sempre
tinha querido ser melhor. A escrita não seria excepção. Por isso, no meio
destas cogitações, deu por si a desenhar pontos e vírgulas na aridez da folha
em branco.
Não sei se bem, se mal, utilizo com alguma regularidade o ponto e vírgula. Ele existe, logo para alguma coisa serve.
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