sábado, 2 de junho de 2012

O código genético


Se há alguma coisa que se espera de um código é que seja preciso. Para confusão já chega a linguagem. Palavras iguais que querem dizer coisas diferentes. Com sorte, mudam de vestes quando são escritas, outras nem isso. E passa a ser tudo uma questão de contexto.

Parece, por isso, assaz estranho, que o código que encerra o nosso património sofra do mesmo mal. Prestar-se a confusões. Esperava-se qualquer coisa mais matemática, onde dois mais dois são quatro, e não quatro e meio, ou quase cinco.

Pois bem, o código genético tem sinónimos, e por isso foi batizado de degenerado. Palavra (e de palavras falávamos) que traduz bem o desprezo que esta constatação suscitou.

Neste código, cada três letras (um tripleto) corresponde a um bloco de construção, chamado aminoácido, o equivalente a uma palavra. Temos aproximadamente vinte, matéria-prima importante no fabrico dos seres vivos.



Ora o problema é que o mesmo bloco pode ser codificado por várias “palavras” (tripletos) diferentes. Pode mudar a terceira letra do tripleto e continuamos a produzir o mesmo bloco. Porque raio, então, esta sinonímia aparentemente descabida, num código que se pretendia preciso, e não literário?

A situação é simples. As alterações no código (mutações) são comuns, e nem sempre são reparadas a tempo. Algumas ficam e podem trazer danos. Isso poderia levar à produção de blocos errados que, numa casa, seria como colocar uma porta no lugar da janela.

Assim sendo, pode acontecer que a terceira letra do tripleto se altere, mas o bloco produzido continue a ser o mesmo, apesar da falha no sistema de reparação, graças aos benditos dos sinónimos. E é precisamente esta qualidade de código degenerado que vai permitir salvar a construção!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Meio sorriso


Esboçou um meio sorriso. Um sorriso completo era muito cansativo, envolvia excessivo trabalho muscular e, segundo ele, não valia a pena.

A conversa não o envolvia. Divagava das palavras proferidas, para a imagem quase etérea da mulher desconhecida que viera a observar na viagem.

Manteve o meio sorriso. Um ligeiro ondular do corpo na cadeira. O suficiente para disfarçar a sua desatenção.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Poemas com rima – A mente e o coração

A mente que desmente
O que o coração sente
Imune às emoções
O seu trabalho é diligente
Colecciona razões
Argumentando questões
Para que o coração se aguente
E não caia aos tropeções
Por amar sem condições
E ser tão impaciente.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

COMPOR

As notas iam e vinham na sua cabeça, excertos de melodias, como frases perdidas de um texto desconexo. Não sabia ao certo porque era perseguido pelos violinos, um crescendo inacabado que não encaixava com os sopros. Isso não era costume. A sua fragilidade era nos violoncelos, instrumento que em vão quisera aprender a tocar.
Olhou o mar. Violinos. Novamente violinos. Gemendo um som que o abafava. Ignorando o ritmos das ondas e das gaivotas. Gostaria de um tampão nos ouvidos que desligasse os sons na sua cabeça. Onde teriam de ficar a incubar.
Foi-se embora.


sábado, 26 de maio de 2012

Poemas com rima - Centro de Dia


                                              (fotografia de Mário Gomes)



Os velhinhos alinhados
Põem a conversa em dia
São momentos bem passados
Em frente ao Centro de Dia.

Estão à sombra, gestos lentos
Contam façanhas de outrora
Mantêm os movimentos
Porque a morte ainda demora.

Nesta tarde alentejana
A vida corre devagar
E a fila não se desirmana
Até a noite chegar.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

INSTINTO


Enfiada dentro de casa, com comida à disposição, a Mia não perdeu a vontade e capacidade de caçar. Que o digam as moscas e outros insectos que se atrevem a ficar no seu alcance.

Avalia a sua natureza, deita-lhes a pata, e quando os vê quase anestesiados mete-os na boca, lambe-os, mas não os come enquanto não forem definitivamente cadáveres.


É por isso que com as vespas e abelhas este ritual é prolongado. Parece saber que a podem picar, é cuidadosa, e espera paciente, entre as inúmeras investidas, que a sua presa atinja aquela imobilidade que lhe garanta o óbito.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

DIFERENÇAS

Como será o mundo dentro do mundo daqueles que, sendo como nós, todavia não o são?
Prisioneiros de si mesmos, habitando uma fantasia a que não acedemos, qual será a forma como nos vêem? E como nós os vemos?
As nossas atitudes, vão do afastamento do que nos é estranho, à compaixão pela sua diferença, mas será que estabelecemos uma verdadeira comunicação?
Alguns expressam-se através da escrita, das imagens, dos sons, assim passando para nós um pouco desse seu mundo. Provavelmente não é o que sucede com a maioria, perdendo-se a oportunidade de uma mútua descoberta.