quarta-feira, 4 de julho de 2012

Terapia de choque


Ouvi há dias a notícia de que há indivíduos condenados no caso BPN que estão a gerir fundos ao serviço do Estado.

É uma ideia engraçada, ainda que não inovadora, já que no filme “Agarra-me se puderes”, com o famoso Di Caprio, o herói, exímio vigarista e falsificador, acaba precisamente na unidade de crimes financeiros do FBI, a detectar cheques falsos.

Penso que neste caso do BPN a ideia deve ser a mesma. Colocar especialistas em desvio de fundos a gerir de forma mais segura outros fundos.

Trata-se de uma terapia de choque, que certamente levará à cura efectiva destes indivíduos. Ou seja aproveita-se o que eles têm de melhor, os seus dotes de especialistas, acrescido do benefício social da sua recuperação plena.

O mesmo que colocar antigos alcoólicos na função de provadores de vinhos.

domingo, 1 de julho de 2012

Notonecta


O insecto Notonecta fica suspenso, virado ao contrário, mesmo por baixo da superfície de um lago, aguardando pequenos distúrbios da água que lhe indicam a presença de uma presa. Quando alguém toca a água com um alfinete perto de um destes animais, ele volta-se na direcção da agitação da água, mas depois de muitos destes toques deixa de responder e leva muito tempo a recuperar.



Poderíamos pensar que se trata de fadiga muscular, mas este insecto volta a responder ao estímulo se este agora ocorrer no lado oposto. Isto quer dizer que apenas deixou de responder devido à habituação, uma das caraterísticas do comportamento.

Há dias pensei como os filhos são um pouco como o Notonecta, deixando de ouvir os pais devido à habituação. Na verdade, tomei consciência de como digo a mesma coisa inúmeras vezes, sempre da mesma maneira, quem sabe, até com o mesmo tom de voz.

Se um simples insecto deixa de responder a um estímulo repetitivo, poderia eu esperar outra coisa dos seres humanos? O melhor será, como para o Notonecta, passar a tocar na água do outro lado.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

HOTÉIS



Os hotéis, em Portugal, não param de surpreender-me.

Há poucos dias pernoitámos num hotel em Coimbra. O quarto apresentava várias deficiências, como a falta de uma mesinha de cabeceira, de toalhas, sabonete, e um chuveiro que mal pingava água. Enfim, como o preço era barato, dei o devido desconto…

A cereja no topo do bolo (neste caso, talvez um ruibarbo no topo do bolo) foi o pequeno-almoço no dia seguinte. Amavelmente anunciaram que este aditamento à dormida era diferente dos outros hotéis. Tínhamos chás, pão, o restante seria dispensado via máquinas, e podíamos servir-nos à vontade. Para tal forneciam uma ficha (uma para as duas pessoas), tipo carrinhos de choque, que uma vez introduzida na ranhura da máquina, nos daria o desejado pequeno-almoço.

Bem, estava tudo na máquina, desde a manteiga à água quente para o chá, e foi num ápice que este servidor de pequenos-almoços mecânico recusou continuar a servir-nos. Descobrimos que já não havia crédito e tive de me contentar com meio pequeno-almoço. A partir desse momento podia continuar a servir-me se pagasse. No mínimo, uma interpretação abusiva do “podem servir-se à vontade”. Nem deu para um café.

Um pormenor interessante – a máquina tinha toda a informação na língua lusa (e muito bem), mas nada em inglês. Como a maioria dos clientes eram estrangeiros, a simpática menina da recepção ia e vinha, traduzindo todo o menu em inglês. Uma lista de 10 ou mais maneiras de obter café ou chá.

O lema deve ser que um estrangeiro com boa memória será capaz de tomar a sua bebida a gosto.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um homem de palavra


Era um homem de palavra. Palavra?

Do que dizia não arredava, a não ser que se enganasse. Claro que isso lhe trazia dissabores. A honestidade não é algo que a sociedade promova. Por isso, na hora da verdade, era a sua cabeça que rolava.

Mas assim ele se fazia grande, pois começar a ceder sem razão seria o início de uma descida sem fim.

E assim se fez conhecido – um homem de palavra.

domingo, 24 de junho de 2012

RUPTURA


Todos os materiais têm elasticidade, capacidade de deformação, voltando à posição inicial. Quando o limite é ultrapassado, dá-se a ruptura, o material já não pode deformar-se mais, quebra.



Uns materiais são mais elásticos do que outros, mas todos têm o seu limite. É por isso que temos tremores de terra. As rochas são submetidas a esforços de compressão ou de tração que excedem o seu limite de resistência. A ruptura que então ocorre causa a libertação de uma grande quantidade de energia, a qual gera as ondas sísmicas que se propagam em todas as direcções.

Nós não somos materiais, mas também temos limites de ruptura. Pressionados, qual elástico, vamo-nos deformando, adaptando, na esperança de, passado o sufoco, voltarmos à posição inicial. Com mais ou menos sequelas. Mas a partir de um certo momento, se a pressão não diminui, podemos atingir a ruptura, e temos direito ao nosso tremor de terra.

Depois, é verdade, resta-nos a possibilidade (nem sempre fácil) de reconstruir.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

As palavras

As palavras são armas poderosas. Pronunciadas, ou escritas, têm a capacidade de mudar o mundo.
No entanto, raramente mostram tudo o que nos vai na alma, infiéis tradutoras dos nossos sentimentos mais profundos. Esbarram nas palavras dos outros. Assustam-se com a intensidade com que são proferidas.
Quando escritas, afastadas do diálogo, ganham a serenidade do distanciamento, mas perdem a interação. Não estão mais lá os gestos, os olhares, os sons do interlocutor.
Entrar na cabeça do outro, uma promiscuidade indesejável, em certas ocasiões poderia trazer-nos a paz. Podermos ver como as palavras são débeis mensageiras do nosso amor, angústia, confusão. E como isso nos é comum.
Não sendo isso possível, é novamente nas palavras, que confiamos para o perdão.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Casas de banho

Há alguns dias atrás, num hotel muito conceituado, fui à casa de banho. Deparei-me com uma sala, ou vestíbulo (o que lhe quiserem chamar), de grandes dimensões, com espelhos enormes, vasos de flores, balcões compridos. Algo de déjà vu de filme americano.
O insólito ocorreu quando entrei no local a que me destinava, o que continha a sanita. Só havia, naquele espaço imenso, dois destes lugares (o fim último pelo qual, inocentemente pensava eu, a casa de banho havia sido construída). Eram dois cubículos. De tal forma que quando fechei a porta, esta passou a cerca de 2 cm da sanita, por pouco não me estropiando as pernas.
Fiquei a perceber que, pelos vistos naquele hotel, a ida à casa de banho deve ser mais uma coisa tipo social, conversa daqui, conversa dali, arranja a pintura, olha as rugas, a maquilhagem da vizinha, quem sabe até dê para beber uns copos. As necessidades fisiológicas, essas, façam-nas em casa. Não estavam à espera de conforto para uma actividade tão pouco conveniente, pois não?
Este episódio, lembrou-me outra história de casas de banho em locais finos, que ocorreu com um dos meus filhos, quando tinha uns 5 ou 6 anos. Numa marisqueira, em que por força das circunstâncias se apercebeu, pela primeira vez, que as lagostas eram um manjar muito caro, precisou de ir à casa de banho. Quando chegou o momento de usar o papel higiénico, não havia. Então ele comentou, muito indignado: “Então este restaurante tem lagostas e não tem papel higiénico?”