Também
a escrita segue o popular adágio do comer e do coçar. Uma vez iniciada a
aventura, as palavras impõem-se, abraçam o quotidiano, seduzem o pensamento.
sábado, 3 de maio de 2014
sábado, 26 de abril de 2014
O relógio de parede
Parado
há anos, acordou após várias tentativas de reanimação. Mesmo sem pace-maker, voltou a bater
ritmadamente. Enquanto houver corda, balança-se no tic tac, dá badaladas, canta
as meias horas. Indiferente à passagem do tempo, badala a desoras.
Pouco
lhe importa o que mostram os seus ponteiros, ou o que reclamam os relógios
digitais. Desempoeirando a velhice, segue os seus devaneios, com distinta
presença.
sábado, 12 de abril de 2014
O futuro
Refúgio
dos nossos pensamentos, anseios, desalento, aí gastamos muito tempo. Pouca
atenção prestamos ao agora, tudo é feito em função desses fantasmas. Na criança
que cresce, no edifício a ser construído, numa candidatura que submetemos.
O
prazer das pequenas horas, do presente, esgota-se na angústia do que há-de vir.
E como se não bastasse, ainda envenenamos as nossas atitudes do momento com as
agruras do passado. Fruto de uma memória selectiva, deixamos armazenadas, a
criar mofo, as alegrias vividas.
terça-feira, 8 de abril de 2014
SOL - II
Abro
os olhos. A penumbra do quarto desnuda-se numa luz intensa. Corro para a
janela, abro a persiana.
É
mesmo. Um sol sem nuvens, que solta melodias na minha cabeça. E tudo se
transfigura, a vida é outro prisma que a luz decompõe.
Imagino
a felicidade das plantas que, elas sim, dependem da fotossíntese para viver.
sábado, 5 de abril de 2014
MATERNIDADE - II
Há os filhos que vieram de nós e
os que adoptámos. Muitos trazidos pelos nossos filhos. E a maternidade também é
isso, esse amor imenso que anseia ser repartido.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
PRIMAVERA - II
Tanta chuva
já enfada
olho o tempo
e não me agrada.
Mas vou fazer
como as flores
e desabrochar
sem rancores.quinta-feira, 3 de abril de 2014
Monte Colcurinho
Numa subida íngreme, ganhando vários metros em cada
curva, lá chegámos ao topo. Por entre a neblina que avançava, indiferente ao
frio, erguia-se a Capela da Senhora das Necessidades. Nome adequado, pois os
velhinhos que nos indicaram o caminho, bem acharam que nos devia faltar alguma
coisa. Riram-se com o nosso propósito.
Isolados de tudo, até do panorama prometido, sentimo-nos
no topo do mundo. O frio, a diminuição da luz, não convidavam à demora. Mas
bastou descer alguns metros, e como se pairássemos, a visão era um sonho. Onde
a alma se perdia na magia daquele entardecer.
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