domingo, 8 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

La Fontaine

La Fontaine tinha umas boas fábulas, é verdade, lembro-me de ouvir várias vezes a da cigarra e da formiga, muito adequada para nos incentivar a trabalhar e a cumprir, e assim termos a comida, ou as poupanças, para o Inverno.

Infelizmente não se aplicam ao nosso país, o tal que está à beira-mar plantado e que é de brandos costumes. E o exemplo vem logo do estado.

O La Fontaine não era português, muito menos um português que esteja em posição de dominar o outro. Assim, o La Fontaine acreditava que trabalhar, produzir, ser honesto, etc. compensava. Quem melhor para exemplificar tudo isto que a formiguinha, direitinha no carreiro, sempre, sempre, a correr, diligente. É verdade que há a rainha, sostra, gorda até dizer chega, que não faz nenhum. Mas que diabo, também produz toda a prole, a futura massa trabalhadora, e sem ter se mexer do sítio. Bem vistas as coisas, como organização, não parece mal de todo, e todas têm o que comer, segurança (social?), e por conseguinte devem ser felizes.

A cigarra não faz nenhum (obviamente que depende do ponto de vista, já que o próprio La Fontaine deixou em aberto que a sua cantoria alegrava as formiguinhas e, convenhamos, que não há nada mais bonito do que a alegria no trabalho). Não tem portanto, uma profissão de jeito, a abnegação da formiga, não poupa, e quando chega o Inverno está à rasca. Aí bate à porta da formiga e leva com os pés.

Mas no país à beira mar (mal?) plantado não é assim. São as formigas que levam no pêlo (ou na quitina) e as cigarras cantam, cantam, e conseguem os melhores lugares. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

FORMIGAS SUICIDAS

Estranho fenómeno, este, que me foi dado observar. Na casa do Gerês, entrando pela janela da casa de banho do segundo andar, num carreiro obediente, as formigas avançam em direcção à tijoleira. Até aqui, nada demais. Não é o que as formigas parecem estar sempre a fazer?
O meu espanto reside no amontoado de cadáveres no chão da casa de banho, imediatamente abaixo da janela. Como a casa está desabitada a maior parte das vezes, a minha explicação, perante tantas formigas defuntas, foi que tivessem morrido de fome. Explicação algo ingénua, tenho de reconhecer, pois se assim fosse, porque não teriam elas saído pelos mesmos orifícios que usaram para entrar?
Para melhor averiguar o fenómeno, varri de imediato o chão da casa de banho, e sem qualquer ritual fúnebre, deitei todas as formigas no lixo. Quando voltei à casa de banho, novamente observei cadáveres, no mesmo local, apenas em menor quantidade. Ou seja, formigas acabadinhas de chegar, que por uma qualquer razão que não consigo descortinar, sofrem uma síncope fatal quando atingem o chão da casa de banho. Repeti esta operação várias vezes durante o fim-de-semana, sempre com o mesmo resultado.
Sem apelo nem agravo, o carreiro de formigas continuava a avançar em direcção ao abismo. Estranho fenómeno este, que me fez recordar algumas atitudes humanas, para as quais, verdade seja dita, também não encontro uma convincente explicação.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ENVELHECER

Actividade incontornável, inscrita em cada uma das nossas células, conduz inevitavelmente à morte. A célula envelhecida (senescente) sinaliza a sua decrepitude e assim, com dignidade, sem efeitos colaterais, é eliminada do sistema. De uma forma programada, e bem concebida, o seu declínio traz juventude ao sistema, que assim continuamente se renova. Graças a esta morte, conhecida como apoptose, habitamos um invólucro que, a nível celular, pouco partilha com a versão original, mantendo todavia a sua identidade. Muito eficaz.
Esta aparente candura a nível celular, já que os mecanismos em si são por demais complicados, não tem paralelo no indivíduo. O nosso corpo não apresenta esta forma “pacífica” de envelhecer e, finalmente, morrer.
Será difícil que aceitemos de forma honesta, que admitamos para nós mesmos, que o envelhecimento e a morte são fenómenos aprazíveis e necessários ao bom funcionamento do grupo humano, tal como o são para as células do organismo. Podemos disfarçar com os lugares comuns como “velhos são os trapos”, ou que a velhice traz sabedoria, mas na verdade, qual é a vantagem para nós mesmos de envelhecermos? Qual a vantagem de lentamente perdermos a capacidade de ver sem óculos, de já não nos movemos tão bem como era habitual, de não podermos comer tudo o que gostávamos, de não conseguirmos dormir uma noite seguida, de começarmos a sentir dores várias, até em locais que não conhecíamos? Porque não, como as nossas células, mantermos as funções íntegras até morrer, em vez de acumularmos próteses e outros aditamentos, até finalmente desaparecermos?
Há todavia uma parte de nós, e verdade seja dita a mais importante, que parece contrariar esta tendência. Contrariamente à visão, que não consegue acompanhar o prolongamento da nossa existência, o cérebro tem outra história. É certo que envelhece, e para alguns até de forma dramática, mas ao mesmo tempo, sabemos agora, conserva grande plasticidade. É graças a ela que alguns de nós conseguem recuperar funções perdidas, por exemplo em acidentes de viação ou vasculares. Por isso aprender coisas novas é tão importante ao longo de toda a vida, para aproveitar e desenvolver esta plasticidade. O cérebro velho não é só memórias e sabedoria, continua a ser curiosidade. E lá voltamos aos lugares comuns - “aprender até morrer”.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CONHECI A MARIA

Conheci a Maria na escola primária e ela sentava-se na carteira ao meu lado. Era muito bonita e tinha muitos amigos, mas, não sei porquê, gostava muito de molhar o dedo na tinta do tinteiro e esfregá-lo no meu livro de francês. Fazia com isso buracos e eu ficava triste porque gostava de ter os livros direitos. Não sei porque fazia isso, não sei se era porque eu gostava tanto de ter as minhas coisas bem arranjadas e gostava de estudar, e se calhar ela não. Para eu não contar nada, dizia que ia falar com o amigo dela, o João, e que ele depois me batia. E eu não dizia nada. Isto só acabou quando, um dia, a professora me viu a chorar e a mancha no livro.

Só voltei a encontrar a Maria muitos anos mais tarde e a primeira e única coisa que me veio à cabeça foram estas imagens. Ela falou muito, eu ouvi, mas não me ocorreu perguntar o que era feito dela. Só via os buracos do meu livro.

domingo, 1 de janeiro de 2012

VIOLONCELO

Dei por mim a achar que aprender violoncelo podia ser a melhor coisa do mundo. Para o que ajudou ter alguém que ensina empenhado em que eu aprenda.

Não interessa, pois, se alguma vez vou tocar a sério, se já só teria idade para ouvir quem sabe tocar, em vez de querer aprender.

No esforço de dominar os dedos, o arco, as notas que mal conheço (onde já vai a parca formação musical…), sinto a capacidade de conquistar este desafio. Até porque, desta vez, foi imposto por mim, não é um revés da vida, não é necessidade de sobreviver, não é para provar nada a ninguém.

Senti necessidade de aprender a tocar, como sinto de cantar, porque a música me emociona, me transporta a um lugar de onde não quero sair. É mais do simplesmente ter o prazer de ouvir. Tocar leva-me para dentro da música. Mais ainda seria compô-la. O sonho, tocar numa orquestra.

Olho para os calos que despontam nos meus dedos da mão esquerda. Os dedos com que me zango, porque teimam em não obedecer prontamente ao meu cérebro. Dou por mim na rua a colocar a mão na posição mais adequada, a entoar intervalos. Como outrora a dança, também esta passagem deixa as suas marcas. São bem-vindas.

Começar agora o violoncelo, ou há tantos anos atrás a dança, traz-me o mesmo contentamento. A satisfação de aprender, de transformar o esforço, o treino, num produto final que se possa apreciar.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

MUDANÇAS

Todos mudamos, não fui só eu que mudei.
Não fazia sentido se assim não fosse. Nada na natureza é imutável, porquê nós?
E ainda bem que assim é.

Há muito tempo escrevi (um tal eu que eu fui):
Como o metal que endurece à martelada, assim endurece o meu coração.
Só que no meu caso o martelo é mais subtil; não sei quando nem como ele me vai agredir.

Aprendi, entretanto, que não é necessário endurecer o coração. Ele é suficientemente maleável para encaixar a dor e a transformar em sabedoria. Às vezes ficam ainda algumas lágrimas, pequenos vestígios das batalhas travadas, mas a angústia, essa, certamente que nos faz crescer.

As mudanças não foram repentinas, todavia podem sê-lo. Um instante basta para se perceber que o nosso ser anseia por algo diferente. No meu caso foi um processo lento, aliás continua a ser. Isso permite que todos nos adaptemos, incluindo eu mesma.

O importante é estarmos abertos, às nossas mudanças e às dos outros. Não faz sentido não aceitar, como não faria zangarmo-nos quando alguma chuva vem esconder a alegria do sol, ou quando a flor despe a sua máscara de pétalas para orgulhosa exibir o seu fruto.