domingo, 18 de dezembro de 2011

CANCRO

Sei que estás deitada, à espera de seres engolida por essa máquina que, qual gruta do oráculo, te presenteará com um veredicto. A tua calma impressiona-me. Nos momentos difíceis sei que vais para um lugar onde eu gostaria de estar.

Esta história começou há algum tempo atrás. Sentias-te cansada, com falta de apetite e começaste a perder peso. Alguma coisa dentro do teu corpo entrara em dissonância, adquirira independência e começava a reclamar agora o seu território.

No entanto todos os exames que havias feito regularmente, e que tu tão bem sabias avaliar, calaram esse estranho intruso. Este acabou por se revelar de forma brutal, quando já se encontrava tão desenvolvido que atingira o estatuto de inquilino perigoso. O que começara como um grupo incipiente de células, seguidoras das suas próprias instruções, ameaçava a sobrevivência da estrutura que o sustentava.

Ironicamente, essas células eram nossas conhecidas. Eu procurava as suas intimidades no laboratório, quer no suporte inerte de uma placa de vidro, quer abafando a vida de um ratinho em cativeiro. Tu vias a parte mais trágica, quando elas lideravam o corpo dos doentes, subjugando-os a uma vida que não tinham escolhido.

O que leva estas células, aparentemente iguais às outras, a decidirem repentinamente voltar às origens, procurando de alguma forma ser novamente embrionárias? Qual o fascínio dessa necessidade compulsiva de divisão, que as pode levar à destruição do organismo que as acolhe? São erros no ciclo das suas vidas, mas porquê tu?

Ensaiam-se hoje várias terapêuticas, que continuam no entanto a ser armas fugazes numa guerra que ainda não está totalmente compreendida. Armas que cuja eficácia varia muito, pois o ser humano é bastante mais complexo que uma placa de Petri. Tão complexo que ele memo pode fazer toda a diferença no sucesso dessas armas.

O teu sexto sentido não te avisou atempadamente, mas agora tem conduzido o processo, levando-te a procurar alguns meios que te permitam readquirir a liderança do teu corpo. São diferentes dos que sempre prescreveste, talvez até estranhos, mas têm-te mostrado outras formas de ver a fisiologia.

Por isso, enquanto continuo às voltas com as células malignas, procurando saber o que as poderá fazer desistir, sei que tu já tens a batalha ganha.

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